o broxa

Publicado: 6 de fevereiro de 2012 em Uncategorized

A PUC-RJ é mundialmente conhecida por produzir economistas que só se preocupam com uma coisa: suas próprias genitálias. Mas na semana passada, o (Pedro de) Lara Resende fez algo inédito: foi mexer na genitália dos outros. Disse, no Valor, que Keynes está morto porque chegamos ao limite físico do planeta. Duas bobagens olímpicas, mas que juntas trazem algo latente. O meio ambiente não é um limite. É o homem tropeçando em sua incapacidade de se autodeterminar, o Aufhebung de Hegel em que a flor pressupõe o fruto. Quando o homem se tornou capaz de sintetizar um elemento orgânico, a ureia, imaginou que podia sintetizar também a organicidade. O problema é que a organicidade está fora dos limites do ato criativo do capital, que deve a sua universalidade à existência de homens partidos. O meio ambiente aparece como coisa externa ao capital porque é aquilo que o capital não pode ser: um mundo possível.

A segunda natureza não passa de uma “boceta cinzenta afundada no mundo”, diria James Joyce, estéril, invejosa da primeira, que cria o diferente e não o partido. Estou afirmando exatamente o oposto daquela máxima de que vivemos num mundo de recursos limitados para desejos ilimitados. O capital é que é um limite, uma aproximação do infinito, sempre assombrado pelos seres autótrofos – capazes de produzir seu próprio alimento. O (Pedro de) Lara disse que não há mais bolha para criar que permita que a degeneração do capital continue existindo como latência. Apontou para o pau do Keynes e disse: é broxa. Parem as rotativas, o nosso amigo descobriu a única enfermidade legítima da natureza humanizada: a impotência.

as memórias de um jogo

Publicado: 4 de fevereiro de 2012 em Uncategorized

Eles abriram o placar no início do segundo tempo. Eu não consigo lembrar exatamente como a bola entrou, mas lembro da decepção da torcida. Meu pai e eu estávamos atrás do gol e por um instante tivemos que escutar o silêncio.

- E agora, pai?

- Calma, filha, a gente vai virar.

Nós tínhamos assistido à final do primeiro turno do campeonato catarinense de 1999 pela televisão. Uma arbitragem sem-vergonha havia dado o título ao Figueirense. Eu ainda não conseguia entender muito bem, mas adivinhava que a raiva que sentíamos em relação àquela decisão lamentável não se resolveria em campo. Dentro das quatro linhas, a alegria é a prova dos nove. Se essa matemática não fechava, era porque havia algo de muito errado fora delas.

- Mas eles têm um time melhor, pai.

Aquele jogo era o reencontro das duas equipes depois da sem-vergonhice no Orlando Scarpelli. É engraçado, mas eu não consigo lembrar do lance do gol. Lembro apenas que assim que a bola morreu na rede do Marcão, alguns torcedores começaram a subir no alambrado do Ernestão e o estádio era uníssono: vamos invadir! Não era mais um jogo, uma federação corrupta, um árbitro retardado, uma rivalidade mesquinha. Era uma reapropriação –  na época, aos 12 anos, não sabia bem de quê.

Um torcedor que estava ao nosso lado jogou os chinelos no campo. Acho que teria jogado o radinho também se tivesse certeza que acertaria a cabeça daquele palhaço com o apito na boca. Os torcedores balançavam cada vez mais o alambrado. Fazíamos com as mãos aquele gesto universal do roubo, mas confesso que eu não sabia exatamente para onde apontá-las. Lembro de ouvir meu pai dizer:

- Tem que invadir!

Tem que. Invadir era uma obrigação. Definitivamente não era mais um jogo. Era justamente a negação do jogo, era a negação da justiça das quatro linhas. Uma justiça que não provém do árbitro ou da federação. Uma justiça em que a arte não é adjetivo, como dizia o Doutor.

Quando o alambrado caiu e meu pai e eu caminhávamos em direção ao gramado, acho que por um instante eu entendi o que significava uma invasão. É a gente querendo que essa justiça das quatro linhas seja também a nossa. E para isso, meu caro, tem que pisar no gramado, não há metafísica que ajude.

Hoje o Jec tem um outro estádio. No lugar do alambrado há um fosso que separa a arquibancada do gramado. É a arquitetura de um mundo falido que vemos reproduzida em tantos outros lugares. Uma arquitetura que nos separa de nós mesmos. Meu pai guardou o jornal do dia seguinte à invasão, em que ele aparece na foto de capa, aos berros. Eu guardei a certeza de que o nosso lugar é no gramado.

o beijo do século passado

Publicado: 30 de janeiro de 2012 em Uncategorized

Ela pulsa. Contrai e relaxa numa repetição sem fim. Contra todas as expectativas, ela pulsa. Ainda que as várias formas de guerra lhe tenham arrancado a cor e o cheiro, ainda que a sociabilidade humana lhe tenha transformado num pensar sem imagens, a vida teimosamente pulsa.

Na formulação da relatividade geral, Einstein imaginou que a força que sentimos com a aceleração era equivalente à força que sentimos com a gravidade, pois ambas só podem ser experimentadas quando se resiste a elas. Einstein sabia que a forma geométrica da trajetória de um objeto indicava se ele estava em aceleração e concluiu que a gravidade deveria ser consequência da deformação do espaço-tempo. Einstein substituiu o espaço absoluto de Newton – o sensório de deus – pela geometria, numa tentativa de dar subjetividade ao mundo físico objetal da ciência moderna através da massa que deforma o espaço. A dificuldade em dar intencionalidade ao Outro está em se livrar da cisão entre humanidade e animalidade. Que o diga Freud.

E que o digam os economistas. O PT assistiu ao Brasil ser espoliado pela reprodução degenerativa do capital global durante as décadas de 1980 e 1990 e aprendeu que o pulsar do capital é sempre uma exportação de destruição e crise através do câmbio. Com Lula e Dilma, imaginou que a aceleração do crescimento pudesse ruir as bases dessa geometria. O PT enganou-se profundamente, pois se a incorporação da destruição de capital já não aparece na flutuação do nível de emprego, ela se consolida na tragédia ambiental. Belo Monte é o símbolo do fracasso do PT, fracasso que o aproxima cada vez mais do pensamento doente de seus algozes na década de 1970, em que o pulsar do capital se recusava a reconhecer a corporalidade de suas vítimas. Na ação judicial que pedia a paralisação das obras da usina, o MPF dizia:

- Neste século, a humanidade caminha para o reconhecimento da natureza como sujeito de direitos.

Continuamos absorvendo a crise como sempre o fizemos, mas apesar dos números do desemprego permanecerem intactos, nossa floresta está vindo abaixo. O pulsar do capital se sobrepõe ao pulsar da floresta. Temos um governo neurótico que precisa destruir o natural para reproduzir o socialmente construído. Marx e Freud se beijam.

(Se ainda rolasse língua, mas nem isso.)

o adjetivo

Publicado: 21 de dezembro de 2011 em Uncategorized

Acho que desaprendi a escrever. Ao menos aquela escrita leve em que uma oração pede a outra, sem conjunções – essa burocracia da linguagem. Uma escrita que redima os adjetivos, nossa chave entre a fatalidade que os sentidos nos entregam e o impossível. Talvez seja este o problema. O mundo só existe para nós como perda, nossa visão de mundo é a do quase-mundo que nos escapa, o que significa que ver é sempre renunciar ao adjetivo. Ver é sempre um ato esquizofrênico de não poder ver. Caros iluministas, onde vocês esconderam os adjetivos? Revistem os bolsos dos alemães.

Procuro um adjetivo para 2011 em meu saco de ironias e não encontro nada. Escrever é uma busca e não encontrar é a sua forma mais sublime. Tento me convencer de que talvez a escrita seja apenas uma extensão da vida para achar graça nessa arqueologia que fazemos ao final do ano. A felicidade de quem cava não é encontrar, mas sujar-se com o barro e com o mistério.

Esses anos de asfalto com a minha magrela me ensinaram uma coisa: se parar de pedalar, cai; se parar de sonhar, morre.

a exceção

Publicado: 25 de setembro de 2011 em Uncategorized

Ando às voltas com o cimento. Porque o homem só reconhece a sua humanidade no cimento, nesse cinza cansado de que são feitas as cidades. Morar no centro da cidade me fez perceber que as pessoas bebem desse cinza durante o dia, mas à noite voltam para as suas casas. O fetiche do homem com a volta para casa é uma tentativa de fuga de sua própria humanidade. O problema é quando o homem descobre que a janta é cinza, a tv é cinza, o sexo é demasiadamente cinza. Estou morando no centro porque sei que não há mais nenhuma casa para voltar. Somente no centro é possível ouvir o silêncio de todo esse cinza que construímos. É ensurdecedor, meu caro. Viver no centro é viver a exceção, viver a ausência de um lar que redima as tuas limitações.

Cada centímetro desse cinza me faz lembrar do verde em que cresci. Quando criança, vivia trepada em uma goiabeira e achava que a visão que eu tinha lá de cima era a visão da onça. Meu opa morria de medo que um dia eu despencasse de lá, por isso passava bosta de vaca no tronco para impedir que eu subisse. Eu não me intimidava e sempre inventava subidas alternativas. Colhia várias goiabas e levava para ele. Ele passava a mão na minha cabeça e sorria.

Moro a duas quadras de uma das principais avenidas de Curitiba. O cinza da Marechal Deodoro só é perturbado pelo colorido dos bancos. São tantos bancos quanto o espaço cartesiano pode aceitar. E o banco é o meu fetiche. O banco é o grande ficcionista desta sociedade, antecipação do futuro no presente. Ontem vi o principal produto da ficção moderna ajeitando um papelão em frente ao Citibank. Acho que o sem-teto também queria voltar para casa. Não poderia ter escolhido lugar mais apropriado. É ali que ele é produzido todos os dias.

Cada pedaço de cinza é um pouco de mim, mas não é no cinza que eu me confirmo. O Zizek diz que as revoltas na Inglaterra simbolizam a forma pela qual os jovens efetivam um consumo que a própria sociedade capitalista impossibilita. De fato, só existe uma forma de se apropriar do humano: vivendo a exceção. Mas é o amor a maior de todas as exceções. A improbabilidade de que duas pessoas na entrega se encontrem.

nada vai dar certo

Publicado: 1 de julho de 2011 em Uncategorized

Monografia entregue. Mas dito assim eu não consigo expressar o que eu verdadeiramente entreguei no departamento esta semana. O que entreguei foi a minha história. Pornografia pura, porque ali estou despida. Mas estou de punho cerrado, pronta para a briga, pois não fosse o idealismo que escondo debaixo da roupa, eu já teria desistido de tudo. Inclusive de mim. É disso que trata a minha monografia: a resistência conjugada no tempo ativo. Eu já chorei muito, mas não é o meu desespero que eu quero entregar para o mundo. O desespero é a tv, a sala de aula, o partido político. Eu quero a exceção, o erro é a minha base material.

Eu sempre achei que depois de entregar a monografia, eu deixaria a ilha e subiria o Itajaí-açu. Repeti esse trajeto mil vezes na minha cabeça quando a graduação não parecia fazer mais sentido algum. Talvez eu vá para Campinas, talvez eu vá para o Rio. Talvez eu volte a escrever, talvez algum dia eu conquiste a minha independência financeira. Talvez a vida me dê uma segunda chance. Só tenho certeza de uma coisa: nada, absolutamente nada vai dar certo.

a ausência das palavras

Publicado: 6 de junho de 2011 em Uncategorized

A repórter pergunta que conselho Fernanda Montenegro daria para alguém que quer ser ator.

- Não seja – disse Fernanda. A menos que não consigas dormir, a menos que a ausência do palco não te deixe viver, não seja.

Há alguns anos, eu neguei a escrita. Gostava demais de contar histórias para contá-las sem verdade, sem paixão. Aprendi a domesticar minhas angústias e a enxergar na estética apenas o modo pelo qual os sentidos buscam beijar o infinito. Eu pensei que podia viver sem o palco e a simples existência da dúvida já era motivo suficiente para que eu não o merecesse. A Fernanda está certa. Só voltes se descobrires que não podes viver sem ele. Eu só podia voltar quando me livrasse de todos os dogmas, quando não restasse mais nada senão a palavra e o espaço que ela cria. O espaço não criado me tira o sono, Fernanda. A história não contada me tira o apetite. Somente neste ato profano da escrita consigo ser corpo sem alma, livre, agora e não depois.